Por Marcelo de Ávila Francos – Diretor Artístico e Cultural do MTG/PR
Buenas a todos!!!
Hoje vamos falar sobre TRADIÇÃO!!!

A palavra tradição vem do latim, do verbo “tradere” (traditio, traditionis) que significa trazer, entregar, transmitir, ensinar. Logo, tradição é a transmissão de fatos culturais de um povo, quer de natureza espiritual ou material, ou ainda é a transmissão dos costumes feita de pais para filhos no decorrer dos tempos, ao sucederem-se as gerações. É a memória cultural de um povo. É um conjunto de idéias, usos, memórias, recordações e símbolos conservados pelos tempos, pelas gerações, sendo assim a eterna vigilância cultural.

Augusto Meyer, em artigo no Correio do Povo de 2 de junho de 1927 assim manifestou-se:

“Tradição é desejo de claridade.

Chega um momento na vida em que o homem, ante as flutuações do seu espírito, quer chegar a uma “estrada real” no meio dos mil “sendeiros” que abrem aos seus olhos cobiçosos o fascínio da aventura.

A Tradição é justamente essa força que nunca admite as imposições individuais. Ela obriga à humildade, como tudo o que está acima e além do homem.

Quando muito, a Tradição quer ser adivinhada em suas formas e penetrada com a inteligência. E a inteligência, nesse caso, é o amor pela terra. O qual, nem procura justificar-se. Mas procura SER, afirmando “.

Barbosa Lessa, em seu trabalho “Caráter Cíclico do Tradicionalismo”, referindo-se a tradição assim diz: “Um culto que se renova. … Na etapa seguinte, ao influxo da II Guerra Mundial, quando Jean-Paul Sartre intrigava os espíritos com sua filosofia existencialista, foi um outro jovem, Paixão Côrtes, com 19 anos, que, entre extrair o SER do nada ou extraí-lo da Tradição — uma vivência coletiva e real –, preferiu convocar seus colegas ginasianos para a ação, afirmativa, no Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos.

Da mesma forma que, hoje, o guri Renatinho Borghetti, com 19 anos, sacode a Era do Som com sua gaitinha de oito baixos e identifica-se com a garotada através dos cabelos compridos, das alpargatas, do informalismo das barracas nos Festivais de Música Nativista.

Espontaneamente. Sem saber que está fazendo História e Cultura”.

Antonio Augusto Fagundes referindo-se a tradição diz: “Em Direito, tradição significa entrega. Em seu sentido mais amplo, que é o que interessa para o presente estudo, tradição quer dizer o culto dos valores que os antepassados nos legaram. Todo o grupo social, toda a nação tem sua própria escala de valores e é essa escala que torna os povos distintos entre si.”

A História iniciou, quando o homem articulou, balbuciou ou pronunciou as primeiras palavras. E o homem só registrou sua história, quando fixou a palavra através da escrita. Antes da escrita, tudo é pré-história.

A linguagem é o veículo de transmissão da tradição, sendo ela o elemento fundamental de qualquer sociedade, de qualquer povo.

A tradição, muito embora não seja uma ciência, está dividida em:

* TRADIÇÃO HISTÓRICA : que se destina a transmissão da memória de fatos ou de vultos notáveis e é preservada de duas importantes formas: através de documentos tais como: cartas, biografias, calendários, anais, compêndios e outras formas; bem como através de monumentos como restos, vestígios, túmulos, palácios, obras de arte, brasões, moedas e outros.

* TRADIÇÃO POPULAR : destina-se ao registra dos fatos culturais que são preservados pela oralidade ou mesmo pela aceitação coletiva.

Vejamos :

* Tradição histórica é folclore? Não

* Tradição popular é folclore? Sim

* Folclore nascente é tradição? Não

* Folclore vigente é tradição? Não

* Folclore Histórico é tradição? Não

* Cultura de massa é tradição ou é folclore? Nenhum dos dois.

Nós os gaúchos, que também, com muito orgulho, somos brasileiros, nos distinguimos dos outros brasileiros, como de outros povos e de outros grupos sociais, porque temos uma escala de valores muito característico e que nos torna diferentes dos demais.

Faz-se necessário ressaltar, que a tradição não é uma peculiaridade exclusiva de nós os gaúchos, uma vez que todos os povos têm sua tradição. Mas nós os gaúchos temos a nossa tradição, a nossa escala de valores, que é peculiar a nós os gaúchos.

Glaucus Saraiva, na obra Manual do Tradicionalista, diz: “Tradição é o todo que reúne em seu bojo a história política, cultural, social e demais ciências e artes nativas, que nos caracterizam e definem como região e povo. Não é o passado, fixação e psicose dos saudosistas. É o presente como fruto sazonado de sementes escolhidas. É o futuro, como árvore frondosa que seguirá dando frutos e sombra amiga às gerações do porvir. ”

Glaucus Saraiva, na mesma obra, cita ainda Hélio Rocha que diz:

“Tradição não é simplesmente o passado.

O passado é o marco. A Tradição é a continuidade.

O passado é o acontecimento que fica. A Tradição é o fermento que prossegue.

O passado é a paisagem que passa. A Tradição é a corrente que continua.

O passado é a mera estratificação dos fatos históricos já realizados. A Tradição é a dinamização das condições propulsoras de novos fatos.

O passado é estéril, intransmissível. A Tradição é essencialmente fecundadora e energética.

O passado é a flor e o fruto que findaram. A tradição é a semente que perpetua.

O passado é o começo, as raízes. A Tradição é a seiva circulante, o prosseguimento.

O passado explica o ponto de partida de uma comunidade histórica. A tradição condiciona o seu ponto de chagada.

O passado é a fotografia dos acontecimentos. A tradição é a cinematografia dos mesmos.

Enfim: Tradição é tudo aquilo que do passado não morreu.”

Zeno Cardoso Nunes e Rui Cardoso Nunes, na obra “Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul”, referindo- se a tradição gaúcha, assim define: “Tradição Gaúcha significa o rico acervo cultural e moral do Rio grande do Sul, no campo literário, folclórico, musical, usanças, adagiário, artesanato, esportes e atividades rurais”

Salvador Ferrando Lamberty referindo- se a tradição gaúcha diz: ” Essa tradição, que nasceu nos galpões de campanha, chegando às cidades, conquistando todas as classes sociais, é o pedestal do ideal libertário do sulino.

Nosso acervo cultural retrata a paisagem sem fim de nossos campos, cortados pelos tropeiros, os rangidos choromingantes das carretas de bois e o grito sentinela do quero-quero.

O povo gaúcho deve orgulhar-se de possuir tão bela tradição. É um pedestal que ostenta o chimarrão, a doma, o fandango, o pealo, a marcação, as lendas, as pilchas, a música, a poesia, os causos, as trovas, etc. A vida passa do real para a fantasia, nas narrativas do Negrinho do Pastoreio, Lenda do Jarau, Boitatá, Angüera, etc. As fascinadoras danças da Chula, Facões, Anu, Pezinho, Chimarrita, Balaio e outras apresentadas pelos grupos de danças ou ainda as de salão como o Chote, a Valsa, a Polca, etc.

A tradição gaúcha fecundou o nascimento de um ritmo musical eminentemente gauchesco, com cheiro de terra o Bugio.

Em 1983, Barbosa Lessa, no trabalho “Caráter Cíclico do Tradicionalismo”, diz: “Causa estranheza o fato dos historiadores do tradicionalismo — como Helio Moro Mariante em publicação oficial do Instituto de Tradição e Folclore — ou seus críticos — como Tau Golin — terem ignorado completamente o regionalismo dos anos 20, a importância de João Pinto da Silva, o pensamento de Augusto Meyer”.

No entanto, aquela etapa é essencial para a compreensão do que vem ocorrendo com a cultura desde os anos 90 do século passado. Ou seja: ciclicamente, de trinta em trinta anos, ao ensejo de alguma rebordosa mundial ou nacional, e havendo clima de abertura para as indagações do espírito, termina surgindo algum “ismo” relacionado com a Tradição.

Assim foi com o gauchismo dos anos 90. Com o regionalismo dos anos 20. Com o tradicionalismo dos anos 50. Com o nativismo de agora. E sou capaz de jurar que lá pelo ano 2010 surgirá uma espécie de telurismo antinuclear ou cibernético, resultante da inquietação de analistas de sistemas em conluio com artistas plásticos, incluindo cartunistas e comunicadores visuais.

É claro que, de acordo com cada época, modifica-se a dinâmica e o campo de ação. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa: expressão de amor à gleba e respeito ao homem rural”.

MARIA IZABEL T. DE MOURA

BIBLIOGRAFIA
LAYTANO, Dante – Folclore do Rio Grande do Sul – costumes e tradições gaúchas.BARBOZA, Maria Cândida – Aspectos de Folclore -Tradição – Cultura

LAMBERTY, Salvador Ferrando

SARAIVA, Glaucus – Manual do Tradicionalista

BARBOSA LESSA, Luiz Carlos – Nativismo

FAGUNDES, Antonio Augusto – Curso de Tradicionalismo Gaúcho

TEIXEIRA, Edilberto – Tentos de uma mesma trança – publicado no jornal “Tradição” / 31 de março de 1987.

LESSA, Luiz Carlos Barbosa – Caráter Cíclico do Tradicionalismo

Nativismo – um fenômeno social do gaúcho.

Fonte: http://mtg.org.br/tradicionalismo/286