Por Marcelo de Ávila Francos – Diretor Artístico e Cultural MTG/PR

Buenas pessoal!!!

Hoje trago a segunda parte da Tese O Sentido e o Alcance Social do Tradicionalismo, de autoria de Jarbas Lima, apresentada no 40º Congresso Tradicionalista Gaúcho na cidade de Dom Pedrito em 1995.
Boa leitura a todos!
O SENTIDO E O ALCANCE SOCIAL DO TRADICIONALISMO
JARBAS LIMA
PARTE II

 

A ATUALIDADE DO TRADICIONALISMO

Em janeiro do ano passado, no Congresso Tradicionalista realizado em Dom Pedrito, apresentei uma tese sobre o Sentido e o Alcance Social do Tradicionalismo. Nela examinei alguns valores da tradição gaúcha, procurei situar o seu conteúdo no âmbito da cultura e da sociedade Rio-grandense, analisando o tradicionalismo enquanto movimento social, suas possibilidades e perspectivas.

Pouco tempo depois, nos meses de março e abril, deparei-me com excelente trabalho publicado pelo jornalista Carlos Wagner, jornal ZERO HORA. Era um conjunto de sete reportagens sob o título geral “O Brasil de Bombachas”. Nelas se conta a história de homens audaciosos, que saíram do Rio Grande para edificar frentes pioneiras nos Estados do Amazonas, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia, Maranhão, Acre, Rondônia, sem falar no oeste de Santa Catarina e do Paraná. É uma verdadeira epopéia contemporânea, os gaúchos sobrevivendo na selva, domando o solo rebelde do cerrado, semeando cidades, derrotando a floresta, mudando a paisagem do sertão.

Nesta expansão para o interior brasileiro, os gaúchos levaram sua indumentária, seus hábitos e sua cultura. Não constituíram caravanas ou expedições de caráter bandeirantista. Não foram para pilhar ou explorar. Pioneiros, foram para semear e ficar. Lá se estabeleceram e, apesar de todos os sacrifícios, na maior parte das vezes superaram os reveses e souberam construir, pelo trabalho, novos núcleos de progresso, disseminando pelo território nacional a maneira gaúcha de ser brasileiro. Os inúmeros CTGs que hoje se espalham pelo Brasil, são os grandes pontos de referência e realimentação da cultura gaúcha nestas novas áreas culturais influenciadas pelo “modus vivendi” do Rio Grande.

Vi confirmadas, neste belo estudo jornalístico, as conclusões que apresentei sobre as perspectivas do tradicionalismo. O método sociológico que utilizei para o exame do tradicionalismo foi confortado com os fatos, estes que terão sempre o primado sobre qualquer assertiva teórica. Pois o “Brasil de Bombachas” suscita uma outra forma de abordagem em torno do tradicionalismo, qual seja a do gaúcho trans-rio-grandense. E desde logo sugere a vitalidade incomum da cultura que se formou no Rio Grande, mercê de nossas peculiaridades regionais e históricas.

Estas constatações me permitem trazer, neste 41º Congresso Tradicionalista de São Lourenço, à beira da famosa Lagoa dos Patos, palco de tantas ações determinantes do caráter gaúcho, mais uma contribuição sobre o tradicionalismo. As teorias sociológicas nos permitem verificar que os processos de mudança social, quando ocorrem movidos por forças internas, endógenas, são mais consistentes, coerentes, harmoniosos e duradouros. Ao invés, quando movidos por forças exógenas, resultantes de impulsos externos, são postiços, anárquicos, desordenados e se institucionalizam com maior dificuldade.

A formação social do Rio Grande deu-se predominantemente de dentro para fora.

Diferentemente dos demais Estados brasileiros, cujo povoamento ocorreu do litoral para o sertão, o povoamento do Rio Grande tomou um sentido inverso. O colonizador europeu atingiu o interior da maior parte do Brasil através do grande número de portos naturais existentes no litoral, tendo muitas vezes optado por permanecer a beira-mar, praticando uma colonização de caranguejos, para usar a expressão pitoresca do Capistrano de Abreu. No Rio Grande foi diferente. Nossa costa marítima é retilínea, sem nenhum porto natural seguro desde a foz do Rio Araranguá, em Santa Catarina, até a baía de Maldonado, em Punta del Este, no Uruguai. Apenas a foz do rio Tramandaí e o desaguadouro da Lagoa dos Patos (que os primeiros navegadores chamaram de Rio Grande), atulhados de areia movediça, ensejavam precários atracadouros. Esta configuração geográfica diferente condicionou que o povoamento de nosso Estado se fizesse de dentro para fora.

Os grandes rebanhos bovinos que se formaram à margem direita do rio Paraná, e mais tarde nos campos do Uruguai, não tardaram a espraiar-se ao natural pelo Rio Grande, junto com os índios minuanos e charruas, que se tornaram hábeis cavaleiros. No sul do Rio Grande, como explica Barbosa Lessa, antes do colonizador europeu já havia o cavalo europeu, o juntamento europeu, o boi europeu, o carneiro europeu, o cão europeu. A seguir vieram os jesuítas, o Padre Roque Gonzales, e as Missões se estabeleceram do oeste para leste. Só não chegaram até o Guaíba porque os bandeirantes paulistas interromperam a sua expansão. Quando do Tratado de Madri e da Guerra Guaranítica que se lhe seguiu, já vinha ocorrendo a ocupação portuguesa através de Laguna e da Colônia do Sacramento. Logo seriam abertos os velhos caminhos, distribuíram-se sesmarias, vieram os açorianos estabeleceram-se as charqueadas.

Processava-se assim aqui dentro, em razão das necessidades internas, a organização da sociedade num território ao qual, nem os portugueses e nem os espanhóis tiveram acesso fácil pela via marítima. Estava reservado ao território de São Pedro do Rio Grande o papel de fronteira em movimento e ali haveria de medrar uma sociedade marcada pelo enfrentamento entre dois impérios em expansão, o português e o espanhol. Mais tarde, quando chegaram os imigrantes alemães e italianos, oriundos de sociedades mais estruturadas, identificaram formas de convívio que correspondiam às necessidades e exigências da comunidade regional, a elas se integrando e emprestando-lhes matizes diferenciados.

Em termos de Antropologia Cultural, um dos aspectos mais fascinantes da história do Rio Grande está no ajustamento dos imigrantes aos valores regionais. A vitalidade da comunidade luso-gaúcha transmitiu-se de forma indelével para as colônias alemãs e italianas. Os alemães, chegados a partir de 1824, tiveram participação direta na Guerra da Cisplatina e na Revolução Farroupilha. Os italianos, que aqui assentaram suas raízes desde 1875, não ficaram imunes às lutas entre maragatos e pica-paus e tiveram participação destacada em todos os movimentos políticos econômicos do final do século passado e do século atual.

A integração do imigrante à maneira de ser do gaúcho pode ser explicada pela afinidade entre sua cultura e os valores locais. Diferentemente do resto do Brasil, que teve uma organização política e social mais ou menos outorgada, vinda de cima para baixo (não havia sequer povo e já estávamos organizados em capitanias e governos gerais), o Rio Grande teve que conquistar o território, zelar pela sua defesa e organizá-lo de dentro para fora e de baixo para cima. Semelhante era a sorte dos colonos alemães e italianos. Enquanto nos demais Estados brasileiros se processava uma colonização por dispersão, como ocorria nos cafezais de São Paulo, com uma aculturação acelerada, no Rio Grande ocorreu uma colonização por nucleação. Aí se deu o prodígio etnológico. Do fenômeno não resultaram quistos, mas integração, um processo de aculturação onde predomina o respeito pelos valores de cada cultura. Havia uma nota comum muito acentuada entre a sociedade local e a dos recém-chegados imigrantes. Ambas tinham que fazer por si, e por si encontrar a solução para os seus problemas.

O colono trouxe os conhecimentos e as técnicas relacionadas à agricultura e a indústria que os luso-gaúchos ainda não praticavam. Estes por sua vez tinham extraordinária habilidade na criação de gado e na organização das estâncias, fatores desconhecidos dos europeus. O próprio Garibaldi, herói dos Dois Mundos, em carta a Domingos José de Almeida, não cansa de gabar o extraordinário desempenho dos cavaleiros gaúchos. Dos contatos destas culturas resultou não a oposição, mas a complementaridade.

Este espírito associativo e universalista, apto a tirar partido das diferenças e reconhecendo a riqueza da diversidade, é uma das características centrais do tradicionalismo gaúcho. É este mesmo espírito que hoje alimenta a audácia do “Brasil de bombachas”.

O príncipe de nossos escritores, o saudoso Érico Veríssimo, em seu inigualável O Tempo e o Vento, criou um personagem, o velho Fandango, que bem traduz o modo de ser do homem simples do pampa e sua percepção dos fenômenos de miscigenação cultural no Rio Grande. Mesmo criticando os alemães, Fandango demonstra por eles, na aparente hostilidade, uma secreta ternura:

“Da margem esquerda pro norte e pro mar
tem gringo demais.
Não gosto de alemão.
Falam uma língua do diabo.
Olham prá gente com um ar de pouco-caso.
Tudo neles é diferente:
as roupas, as danças, as comidas, as casas,
até o cheiro.
Quando eu vejo um homem de pele muito branca
cabelos de barba de milho e olho de bolita de vidro
até me dá nojo.
Se eu fosse governo, mandava essa alemoada embora.
Não é que eu seja mesquinho, somítico ou malevo:
Estrangeiro também é filho de Deus…”

Ao descrever os italianos, Fandango dá todas as razões para a integração das culturas gaúcha e peninsular:

“Duns anos pra esta parte, tem chegado também muito italiano.
Se empoleiraram na serra, porque a alemoada, que chegou primeiro, pegou os melhores lugares na beira dos rios.
Já andei por essas novas colônias da região serrana.
A fala deles tem música
e é doce como laranja madura
e meio parecida com a nossa.
Gostam de comer passarinho,
de fazer e beber vinho,
de cantar, de ouvir missa,
de padre e de procissão.
Vacuncés são muito moços, não pegaram a Guerra dos Farrapos.
Pois o velho Fandango teve a honra de servir com José Garibaldi,
que também era gringo,
mas gringo de senhoria.
Sabem o que foi que ele disse na sua língua atrapalhada?
Que com a nossa cavalaria era capaz de conquistar o mundo…”

O personagem de Érico situava-se no século passado. Qual não seria hoje o seu discurso, se tivesse conhecido a epopéia do “Brasil de Bombachas” e tivesse constatado que grande parte daqueles pioneiros são os descendentes dos imigrantes. Este universalismo que transcende as fronteiras artificiais do Estado (Mundo velho sem porteira), que hoje se afirma através dos fatos, demonstra a atualidade permanente da tradição gaúcha.

Quem leu o romance, ou assistiu o filme O Quatrilho, do professor Júlio Pozzenato, terá observado como as cidades da região serrana na zona de colonização tiveram o seu grande impulso no momento em que se aliou a iniciativa dos imigrantes italianos, sua agricultura e sua indústria, com os pecuaristas luso-gaúchos. A obra é rica nos diálogos dos heróis descendentes de imigrantes com os fazendeiros dos Campos de Cima da Serra. Neste particular também é visível a relação de complementaridade entre as duas culturas em fase de acomodação e ajustamento. A ênfase que, nesta comunicação, acompanha o fenômeno da imigração justifica-se pelas comemorações, no ano que passou, dos 120 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Independentemente da análise histórica e antropológica, é importante olhar um pouco mais de perto para o próprio Movimento Tradicionalista. Vale a pena frisar alguns pontos de nossa Carta de Princípios, aprovada há 35 anos no Congresso Tradicionalista de Taquara (julho de 1961) e que se mantém extraordinariamente atual. Nela se preconiza a necessidade do cultivo da tradição “como substância basilar da nacionalidade”. Que outra coisa estão fazendo os pioneiros do “Brasil de Bombachas”?

Defende a Carta a necessidade de “pugnar pela fraternidade e maior aproximação dos povos americanos”. Pois o “Brasil de Bombachas”, que veio do Rio Grande, já estava também no Paraguai, na Argentina e no Uruguai e já lá estava muito antes de se falar em MERCOSUL. Penso que nenhum Estado brasileiro está tão preparado quanto o Rio Grande para o MERCOSUL. Neste particular avulta outra nota importante: aquela fatalidade geográfica, que nos colocava na periferia cartográfica do Brasil, agora nos traz para o centro da nova comunidade transnacional. A história demonstra que os mapas se modificam com maior facilidade do que as culturas.

No seu artigo XXIII diz a Carta: “Comemorar e respeitar as datas efemérides e vultos nacionais e particularmente o dia 20 de setembro, como data máxima do Rio Grande do Sul”. E mais adiante no artigo XXIV: “Lutar para que seja instituído, oficialmente, o Dia do Gaúcho, em paridade de condições com o Dia do Colono e outros “Dias” respeitados publicamente. No ano de 1995 pudemos comemorar, pela primeira vez, o dia 20 de setembro como feriado estadual. Foi preciso que um tradicionalista no Congresso Nacional, o modesto signatário desta comunicação, propusesse projeto de lei permitindo aos Estados a fixação de um feriado estadual na sua data máxima. Sancionada a lei pelo Presidente da República, hoje o Rio Grande pode celebrar condignamente o dia 20 de setembro.

Este mesmo Congresso Tradicionalista que realizamos todos os anos, agora em sua 41ª edição, é uma súmula do que defende nossa Carta de Princípios. O Rio Grande vive hoje momentos difíceis. Se a natureza lhe foi predominantemente dadivosa, não deixam algumas de suas manifestações de serem adversas e até hostis. A longa estiagem que destruiu nossas lavouras e a enchente catastrófica que lhe seguiu nos trouxeram este quadro de problemas, justamente no momento em que nos reunimos neste Congresso Tradicionalista de São Lourenço.

Oriento-me, então, pelo primeiro artigo de nossa Carta de Princípios: “Auxiliar o Estado na solução dos seus problemas fundamentais e na conquista do bem coletivo”. A mensagem que podemos enviar a todos os irmãos gaúchos, nesta hora difícil, é a da solidariedade. O ideal de “HUMANIDADE”, gravado nos símbolos farroupilhas, é o fundamento de todo o tradicionalismo. Ele vem acompanhado daquela certeza de que o Rio Grande, que sempre soube fazer por si, haverá de vencer. Em resumo, o Tradicionalismo Gaúcho se fundamenta na singularidade da história de um povo que se fez de dentro para fora, de baixo para cima. Temos um passado que é parte integrante de nossa identidade. Nossa memória coletiva não se compõe apenas de heróis, mas sobretudo de grupos e comunidades que souberam escolher soluções e eleger seu próprio destino. O dinamismo e o espírito de iniciativa dotaram o povo gaúcho de um pioneirismo que hoje se espraia por todo o país, e até mesmo para além de suas fronteiras, comprovando com os fatos a valia de nossa tradição. Todas as culturas que se confluíram para o Rio Grande moldaram-se numa matriz de compreensão e solidariedade. As lutas do passado, as horas de provação nos ensinaram a superar as dificuldades, dando-nos as mãos. A tudo soubemos vencer, dada sobremodo nossa imensa capacidade de amar. Tal como diz o nosso cancioneiro, é o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra em flor, onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor”.

continua na próxima semana

Fonte: http://www.mtg.org.br/historico/243